Arquivo da tag: equipes

Recruta-se homens para jornada perigosa


“Há uma espécie de homens – de homens jovens sobretudo – que se comportam instintivamente de forma a justificar o que se espera deles. Se são olhados com olhos de desprezo, existem todas as chances para que se comportem de maneira desprezível. Se, ao contrário, sentem a estima e a confiança, superam a si mesmos e, mesmo morrendo de medo, como todos os outros, são capazes de agir como heróis.” – Maurice Druon

Penso que essa descrição, feita pelo autor francês da série Reis Malditos, sirva também ao propósito de definir como devemos encarar a formação de novos profissionais e a responsabilidade que temos como formadores das novas gerações.

Escrevi alguns artigos tratando da formação de profissionais e penso que seja oportuna a republicação. O primeiro tem o título: Recruta-se homens para jornada perigosa.

Anúncio de Emprego Endurance

Anúncio de vagas para a Expedição Imperial Transantártica de 1914.

“Recruta-se homens para jornada perigosa. Salários baixos, frio extremo e longas horas de escuridão completa. Retorno em segurança duvidoso. Em caso de sucesso: honra e reconhecimento – Ernest Shackleton.” Este foi o anuncio de recrutamento feito para Expedição Imperial Transantártica de 1914. É possível que tanta sinceridade cause espanto ainda hoje, mas em 1914 esse anúncio atraiu mais de 2 mil candidatos.

Somos induzidos e nos permitimos acreditar em benefícios que podem nem existir. O risco é ser seduzido pelo “canto da sereia”, onde a realidade é disfarçada por promessas e expectativas que nos levam ao encontro de situações indesejadas. Nestes casos, não é prudente esperar gratidão quando a verdade se apresentar.

A formação de uma equipe começa na idealização do propósito a ser alcançado. Continua no planejamento onde é feita a declaração dos resultados desejados, a definição de métodos, métricas e recursos e a quantificação de esforços e riscos. Segue pela execução com o aproveitamento e desenvolvimento das habilidades individuais e coletivas, com a gestão dos recursos alocados e superação de imprevistos. Ao final, têm-se um conjunto de informações e de novas habilidades que podem ter aproveitamento posterior.

A escolha do “Chefe” é de grande importância, pois, a ele cabe a responsabilidade do êxito. É dele que devem ser cobrados resultados e explicações. A sua escolha deve ser baseada na confiança dos seus patrocinadores e competência técnica. Devem ser observados critérios, tais como; liderança, ética, caráter, experiência, objetividade, motivação, determinação, coerência, persuasão e autocrítica. A ele devem ser dadas informações, recursos e instrumentos adequados para que o sucesso desejado possa ser alcançado.

O planejamento criterioso é quem cria condições para antever as habilidades (pessoas) e recursos (insumos). Quando pouco cuidadoso, a preparação é substituída pelo improviso, o que potencializa problemas. Saber onde e como se quer alcançar seus objetivos encurta o caminho entre ideia, desejo e realização.

No recrutamento é fundamental deixar claro aos candidatos o que se deseja alcançar, como se pretende fazê-lo, quais são os reais desafios e riscos e recompensas possíveis. Pactuar com esses objetivos, desafios e riscos deve ser uma escolha consciente.

É preciso ter bem definidos para cada função os seus requisitos (capacidade, esforço, conhecimento e experiência). Tão importante quanto esses requisitos são as características (lealdade, caráter, motivação, humor e altruísmo).

Recebi um texto que retrata com sábia simplicidade o diálogo entre um Mestre e o seu Pupilo. Esse diálogo, que transcrevo a seguir, sintetiza o motivo pelo qual recomendo a mesclagem de profissionais experientes e novos: “Mestre, como faço para me tornar um sábio? Boas escolhas, responde. E, como fazer boas escolhas? Experiência, diz o Mestre. E como adquirir experiência? Más escolhas, concluí”.

Outro cuidado que tenho ao formar minhas equipes é o de não incluir ou manter nelas pessoas excessivamente pessimistas, fatalistas ou os infelizes azarados. Profissionais com esse tipo de postura contaminam todo o ambiente e fazem cair a produtividade do grupo. A produtividade individual deles também é menor, pois, acreditam que o mundo lhes deve algo e fazem uso desses “pretensos créditos”

É ainda necessário que exista coerência entre a equipe e a organização. A equipe deve refletir e seguir características próprias da organização onde está inserida, mas ela também deve ser um fator de mudanças. Sob o ponto de vista da organização, a equipe não é um fim, mas um meio para se atingir determinado propósito.

É preciso que exista confiança na relação entre os membros da equipe. Neste aspecto, cabe mais ao líder criar entre os seus liderados esse tipo de consciência. Não se faz isso apenas com palavras, se cria com ações e com o cumprimento dos compromissos firmados, além das decisões tomadas diante de diversidades.

A formação de uma equipe se inicia antes do recrutamento e não termina com ele. Essa é a atividade mais constante daquele que se dispõe a empreender desafios e a liderar pessoas.
___________________________________

Informações biográfias sobre Ernest Henry Shackleton podem ser obtidas por consulta à Wikipédia| Shackleton | e também sobre o escritor francês Maurice Druon | Druon |

___________________________________

Rodrigo Campos .:. Atua como consultor, executivo e empreendedor no mercado de Tecnologia da Informação desde 1993 e em gestão empresarial desde 1998.

___________________________________

Licença Creative Commons

Esta obra de Rodrigo Campos está licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 Unported License

Etiquetado , ,

O Dilema da Mudança


Mudanca

Muito estudei e debati a respeito desse tema, mas ainda não encontrei argumento que tivesse me convencido. A tese que se sustenta é que o novo cria resistência pelo medo da mudança o que julgo em essência ser superficial. Estou convencido de que somos resistentes à mudança não por medo, mas por conforto. Creio que uma associação entre a sociologia, antropologia ou mesmo a biologia possam explicar com mais propriedade aquilo que desejo despretensiosamente sintetizar.

O novo sempre é melhor. O discurso do novo envelopa tudo como algo necessariamente bom. Muitos já fizeram uso desse argumento para legitimar interesses ilegítimos. Opositores ao novo são agrupados e posteriormente segregados. E, ainda que se estabeleça, nesse cenário o novo será aceito como algo que deve ser combatido. No mundo corporativo, o exemplo mais pragmático que vivi foi o breve ciclo da reengenharia na década de 90.

Vontade por si só promove mudança. Esse discurso baseia-se na dissociação entre desejo e ação. O processo de mudança requer planejamento e esforço para implementá-lo. Talvez seja esse o argumento mais oportunista, pois, é baseado no descompromisso com a execução. Nele tudo é possível, fácil e rápido. São ricos exemplos da sua aplicação, sobretudo no campo político e em cases de consultorias mal sucedidas.

Prefiro avaliar essa questão da perspectiva da evolução, involução e revolução. O novo só faz sentido se trazer consigo algo verdadeiro que provoque evolução. Evoluir não significa sair de um estado de conforto e migrar para outro. A evolução exige adaptações. A opção contrária é a involução onde entregamos passivamente ao tempo a determinação do momento da nossa obsolência que é sim inevitável para a maioria de nós mortais. Ao evoluir brigamos com o inevitável e essa é uma das questões da jornada humana pela qual tenho especial apreço.

Porém, o que mais me instiga é a revolução onde rompemos os limites. A revolução é sim um ato de rebeldia e através dela avançamos anos, décadas, séculos e milênios num único ciclo. A evolução é uma sequencia congruente de movimentos enquanto a revolução é o movimento em sí.

Evoluir é seguir por um caminho já desenhado enquanto revolucionar e fazer o próprio caminho. Não mude, evolua. Mas, se tive a oportunidade, coragem e o privilégio – revolucione!

__________________________________

Rodrigo Campos .:. Atua como consultor, executivo e empreendedor no mercado de Tecnologia da Informação desde 1993 e em gestão empresarial desde 1998.

___________________________________

Licença Creative Commons

Esta obra de Rodrigo Campos está licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 Unported License

Etiquetado , , , , , ,