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Uma lição atemporal de liderança


O naufrágio do navio Costa Concordia, onde o seu capitão literalmente abandonou o navio me fez relembrar de outras histórias de naufrágio onde a atitude do líder também definiram o seu desfecho. Vejo então oportuna a republicação de um artigo que escrevi em outubro de 2007 onde conto a história dos naufrágios do Endurance e Essex.

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Foto do navio Endurance preso entre banquisas de gelo.

“Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e grandes tempestades” – Epicuro

Tudo aquilo que tenho pesquisado e vivido indica que o bom líder é aquele que entende, e se faz entender por os seus liderados. É preciso saber comandar, mas é fundamental saber cativar.

É crucial que o liderado tenha fé no seu líder, seja para ter êxito e gozar de vitória gloriosa, ou para fracassar, e neste caso, padecer com honra. Citarei um relato de homens que foram capazes de superar situações desfavoráveis pela confiança no seu líder e outro onde isso não ocorreu.

Um bom exemplo é a saga do Endurace, navio a serviço da coroa britânica na Expedição Imperial Transantártica em 1914, comandado por Ernest Henry Shackleton, que após ficar 306 dias nas garras de banquisas de gelo foi esmagado e afundou.

A determinação do capitão Shackleton salvou sua tripulação de 27 homens depois do desastre da perda do navio seguida do isolamento e da sobrevivência sobre o gelo.

Shackleton, apoiado por sua tripulação, venceu com 3 botes um mar revolto e o rigor do clima da região polar até chegar à isolada ilha Elephant onde deixou 22 dos seus homens (que ele voltaria depois para resgatar). Seguiu com mais 5 homens rumo à ilha da Geórgia do Sul a bordo de um dos botes do navio, o pequeno James Caird. Navegaram por mais 16 dias nas águas mais perigosas do planeta. Devido aos rigores do clima, as condições do mar e a precariedade da embarcação, essa travessia é considerada como um dos maiores feitos náuticos da história.

Mas, isso ainda não era o bastante! Para chegar ao lado norte de ilha, onde se encontravam as estações baleeiras e pedir socorro não só para eles mesmos, mas para os 22 homens que ficaram na ilha Elephant, era ainda preciso fazer uma longa travessia. Até aquela data, ninguém jamais havia penetrado as geleiras e montanhas do interior da Geórgia do Sul.

Para se ter noção das dificuldades encontradas, nos últimos anos diversas expedições, usando os modernos equipamentos de alpinismo, tentaram seguir os passos de Shackleton e seus 2 companheiros. Não mais que 20 pessoas, incluindo aí os 3 primeiros tiveram sucesso.

Depois de um rápido descanso, Shackleton e mais 2 tripulantes partiram para alcançar as estações baleeiras do lado norte da ilha deixando 2 companheiros, que depois seriam resgatados. Com apenas 17 metros de corda, uma ferramenta usada como “picolé”, botas velhas com travas feitas com parafusos tirados do bote e roupas que mais pareciam farrapos, partiram rumo ao desconhecido. Após 36 horas caminhando sobre geleiras e montanhas chegaram à base baleeira de Stromnes.

Shackleton conseguiu retornar à Ilha Elefante e resgatar todos os seus homens com vida. Todos os tripulantes do Endurance sobreviveram. As vitimas foram os cães que tiverem que ser sacrificados e comidos para que a tripulação não concorresse com eles aos viveres disponíveis. A outra vitima foi um gato, Mrs. Chippy, que era mascote do navio.

O revés desse exemplo foi o naufrágio em 1820 do Essex, um baleeiro americano da ilha de Nantucket (ícone da economia americana naquela época). Esse navio foi afundado pelo surpreendente ataque de uma baleia cachalote de 26 metros.

Em consequência do naufrágio, seguiu-se um esforço desesperado da tripulação de 20 homens para salvar suas vidas, refugiada durante 90 dias em mar aberto em 3 botes, com pouca água e alimentos, e que chegaram a praticar o canibalismo para sobreviver.

Esse definitivamente não foi o maior pecado daqueles homens. Pesquisadores atribuem esse desfecho desastroso à avareza dos empresários da ilha de Nantucket, ao despreparo da tripulação escolhida com base em critérios questionáveis, mas principalmente à liderança parca do capitão do navio George Pollard que não fez valer suas convicções que poderiam, senão ter evitado o naufrágio, teriam minimizado muito o caos que foi o seu desfecho.

Embora as intuições do capitão Pollard fossem corretas, faltou-lhe força para impor sua vontade aos seus dois jovens oficiais. No caso do Essex, de uma tripulação de 20 homens distribuídos nos 3 botes, 11 morreram após o naufrágio. Os 5 primeiros tripulantes a morrer foram 5 negros. Desde o inicio da viagem eles recebiam um tratamento e alimentação pior que o resto da tripulação do navio. Dos sobreviventes, a maioria era de naturais de Nantucket. Os sobreviventes do Essex foram encontrados à deriva em mar aberto e não teriam chance de alcançar terra firme.

A tragédia do Essex inspirou o romance Moby Dick, de Herman Melville, que trata a luta de um homem contra seus medos e como tenacidade e determinação podem se transformar em obsessão e loucura. O homem descrito não corresponde à figura do Capitão Pollard. Ele está mais baseado no perfil de Owen Chase, o primeiro imediato que desejava ocupar o seu lugar, e acabou sendo capitão, e morreu demente muitos anos depois. Pollard morreu feliz na função de vigia noturno de Nantucket. Ele assumiu essa função depois de perder seu segundo navio.

As realizações de Shackleton até hoje inspiram. Ele deixou um legado difícil de ser esquecido. Ficou famoso tanto por suas expedições polares, como pela sua maneira peculiar de lidar com seus comandados. Apelidado de “Boss” por seus companheiros, Shackleton tinha como prioridade a segurança e o bem estar de seus homens, o que gerava uma fidelidade e adoração jamais alcançadas por seus pares.

De maneira intrigante, o insucesso de Shackleton para alcançar sua meta inicial, que era chegar ao continente antártico e atravessá-lo por terra, lhe deu mais notoriedade que façanhas bem sucedidas de outros exploradores da sua época. Shackleton morreu durante sua passagem na ilha Geórgia do Sul, numa nova tentativa para chegar ao pólo sul, e lá foi sepultado.

Voltando ao mundo empresarial, é conveniente que os comandados tenham fé no seu líder. Essa concepção contraria uma velha máxima fordista, válida, ou não, que pregava que para manter um trabalhador bastavam duas coisas: “O salário e o medo de perdê-lo.” Não acredito que este princípio seja passível de aplicação em empresas modernas com base no conhecimento.

Aos meus companheiros liderados, pois, todos temos que escolher um líder,  digo que a todo o momento existem Endurance´s e Essex´s saindo dos portos empresariais. Existem Shackleton´s e Pollard´s recrutando suas tripulações. Temos que definir em qual navio embarcar, e qual o tipo de líder queremos seguir. Aos amigos embarcados em empresas do tipo Essex, recomendo que saiam antes que sejam devorados.

Pessoalmente, não tenho nenhuma dúvida, prefiro navegar com o “Boss”. Inclusive, esse é o maior elogio que posso fazer a um profissional é chama-lo de Chefe.

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Rodrigo Campos .:. Atua como consultor, executivo e empreendedor no mercado de Tecnologia da Informação desde 1993 e em gestão empresarial desde 1998.

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