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Escute mais…


Escutar

“Quem escuta, ouve; mas quem ouve não necessariamente escuta.”

Há algum tempo observo em minhas consultorias certa contradição entre a intenção que motiva a contratação de um especialista externo e a disponibilidade da organização em escutá-lo.

Antes de seguir com esse tema, proponho explorarmos um pouco a diferença entre ouvir e escutar: Ouvir está ligado aos sentidos da audição, ao próprio ouvido. “Entender, perceber pelo sentido do ouvido.” Escutar, significa “(…) prestar atenção para ouvir; dar atenção a;…”. Ou: “tornar-se ou estar atento para ouvir; dar ouvidos a; aplicar o ouvido com atenção…”.

Percebe-se então que para escutar é preciso focar a atenção. Isso requer ouvidos mais seletivos, pois, o escutar implica em ouvir, contudo: Quem escuta, ouve; mas quem ouve não necessariamente escuta. Daí nasceu o dito popular: “Entrou por um ouvido e saiu pelo outro”.

Retomo o tema acrescentando um outro elemento – a vaidade. É preciso ter humildade para escutar aquilo que nos contradiz. É comportamento comum entre executivos a opção pela negação da realidade numa tentativa inútil de alterá-la por sua recusa. Isso é tão eficiente quanto a ação de uma criança que para se esconder fecha seus olhos.

É comum que o mensageiro da má notícia tenha a sua cabeça cortada assim como faziam alguns reis no passado. O “Rei” que  assim agia moldava ao seu redor o comportamento da sua Corte baseado em mentiras, o que ainda acontece nas organizações modernas. Para usar o mesmo simbolismo vou citar o conto que se intitula “Mensagem”:

“Um Rei mandava cortar a cabeça dos mensageiros que lhe davam más notícias. Desta forma, um processo de seleção se estabeleceu: os inábeis foram sendo progressivamente eliminados, até que restou apenas um mensageiro no país. Tratava-se, como é fácil de imaginar, de um homem que dominava espantosamente bem a arte de dar más notícias. Seu filho morreu – dizia a uma mãe, e a mulher punha-se a entoar cânticos de júbilo: Aleluia, Senhor! Sua casa incendiou, – dizia a um viúvo, que prorrompia em aplausos frenéticos. Ao Rei, o mensageiro anunciou sucessivas derrotas militares, epidemias de peste, catástrofes naturais, destruição de colheitas, miséria e fome; surpreso consigo mesmo, o Rei ouvia sorrindo tais novas. Tão satisfeito ficou com o mensageiro, que o nomeou seu porta-voz oficial. Nesta importante posição, o mensageiro não tardou a granjear a simpatia e o afeto do público. Paralelamente, crescia o ódio contra o monarca; uma rebelião popular acabou por destituí-lo, e o antigo mensageiro foi coroado Rei. A primeira coisa que fez, ao assumir o governo, foi mandar executar todos os candidatos a mensageiro. A começar por aqueles que dominavam a arte de dar más notícias.”

Pra mim, essa é a questão que define o sucesso ou o fracasso da própria organização visto que esse fenômeno se repete na relação entre acionistas, com colaboradores, clientes e parceiros e com o próprio mercado.

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Rodrigo Campos .:. Atua como consultor, executivo e empreendedor no mercado de Tecnologia da Informação desde 1993 e em gestão empresarial desde 1998.

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